O excêntrico Gerard Van Pelt fitou o mais novo se levantando da poltrona com um ar revoltoso e chocado. De certa forma, estava orgulhoso de finalmente ver Jungkook tomando algum tipo de atitude após tantos anos, mas aquela não era nada aprovada por seus princípios:
— Não pode sair daqui.
— Pois eu vou fazer isto e já me decidi — O Jeon disse com firmeza. — Estou apenas lhe avisando para que não se espante com minha ausência amanhã.
O moreno parecia realmente repleto de ideias extremamente definitivas. O mais velho bufou contra a mesa de madeira que devia ter mais de 400 anos de existência e permanecia intacta diante da passagem do tempo. Antes conseguiria fazer algo para deixá-lo comovido e repensar seus planos rebeldes, mas agora que possuía maturidade e sabia a verdade sobre tudo, não havia outros meios.
Gerard sabia muitíssimo bem que a decisão de Jungkook era arriscada, tanto para si mesmo quanto para todos por ali, mas mesmo assim não se daria ao trabalho de alertá-lo. Talvez seria prazeroso ver o garoto se arrependendo de seus atos e reconhecendo que jamais deveria pensar em sair daquele maravilhoso lugar. Porém tentaria ainda insistir para evitar o estresse que aquilo causaria:
— Não tem noção do tamanho de sua ingratidão ao fazer isso, Jeon. Tem tudo o que lhe é conveniente e necessário por aqui, não sei por que quer mais.
— Não há o que eu mais preciso por aqui, e está ciente disso! — Colocou a folha antiga sobre a mesa, acima dos outros papéis envelhecidos.
Os olhos de cor peculiar fitaram o que estava impresso. Então era isso que o garoto queria? Realmente, não havia nada sequer similar a isso no espaço que tanto cultivou para que fosse perfeito e inigualável. A verdade era que jamais imaginaria que alguém por ali queria algo tão novo e surpreendente.
— Ora… É uma enorme tolice! Uma perda de tempo! — O Van Pelt exclamou, agitando as mãos em reprovação.
— No momento, eu sinceramente não me importo com o que pensa sobre. Eu já vou indo, auf wiedersehen*!
Chocado com o desdém, viu Jungkook agarrar o papel com gana e correr porta afora, o deixando sozinho no escritório que cheirava a um misto de tinta nanquim e mofo. Suspirou, enfim, aceitando que havia definitivamente perdido todo o controle que tinha sobre Jungkook, e nada mais podia ser feito a respeito além de lamentar-se e aguardar que este voltasse arrependido no raiar do dia que iria nascer.
Enquanto isso, o coreano descia a longa rua e repleta de plantas que cresciam de modo selvagem, afastando-se a cada passo daquele local e avançando em direção a cidade adormecida. Já era mais de meia noite, e todos por ali iam para suas camas bem cedo. Mas para ele, ainda estava longe do horário que estava acostumado a dormir.
Encheu os pulmões da brisa que havia dali, sentindo certa diferença, como se houvesse um pouco de fumaça por ali. Mas ainda sim, era o cheiro e a sensação revigorante da liberdade que tanto ansiava e agora estava prestes a desfrutar.
— É diferente, mas é muito belo… — Sussurrou para si mesmo, sorrindo.
As sombras e fantasmas brincavam consigo de modo travesso e maldoso enquanto caminhava na calçada cinzenta e vazia, mas ele não tinha medo do escuro e sequer se assustaria com algum som feito pelas árvores no meio de todo aquele silêncio sombrio que emergia da noite, muito menos os suspiros taciturnos. Nada o assustava, nem o faria recuar seu caminho. Podia sentir a ventania que vinha da praia gélida soprar seus fios negros, mas não estremeceu em momento algum.
Quando se cansou da caminhada, entrou num cemitério pulando com facilidade as grades e se sentando próximo às lápides que pareciam mais antigas e desgastadas com o tempo. As almas que haviam ali lhe sorriram de modo gentil:
— Até muitos de nós descansamos pela noite, e você caminhando por aí como uma alma penada boêmia! — Uma delas divertiu-se com a vista.
Se virou para ver o espectro que lhe falava, e já se conheciam bem. Afinal, era a melhor contadora de histórias que ele já viu.
— Eu tive de sair dessa vez — Explicou-se num suspiro.
— Oh, não diga que brigou com ele!
Jungkook se calou, confirmando a sugestão da finada que pareceu chocada com a novidade, tendo de se sentar em outra lápide para pensar na probabilidade de tal briga ocorrer e as consequências que estas podiam trazer para a vida do jovem rapaz.
— Não se preocupe, amanhã volto e tento resolver tudo o que houve. Saí pois tenho um compromisso bem cedo, e este é de suma importância para mim — Respondeu brincando com as pétalas secas e incensos que há muito tempo foram queimados. — Aliás, creio que vou acabar tendo de descansar também.
— Pois então descanse, há algo confortável para seu corpo um pouco à frente — Apontou o indicador espectral para um amontoado de folhas que estava a alguns metros a frente. — Não vai querer descansar suas costas em minha lápide, acordaria com uma infeliz dor nas costas e eu não poderia fazer nada por você. Além disso, há um pouco de musgo sobre ela, o que é bem desagradável.
Os olhos puxados e escuros conferiram a lápide com o nome "Elionore Van Pelt” gravado, e realmente parecia desgastada e repleta de musgos. Não pensou duas vezes antes de pegar um de seus refinados lenços bordados e retirar o excesso esverdeado que que ao menos os detalhes pudessem voltar a ser vistos.
— É uma bela lápide — Elogiou.
— Obrigada, seu tataravô era muito bom neste ramo, senti-me grata quando vi.
Sorriram de modo agradável e logo o Jeon se ergueu, indo em direção ao lugar que Elionore lhe instruiu, carregando a maleta com tudo o que julgava ser necessário. Mas parte sua sabia que quando o dia raiasse, logo notaria que lhe faltariam muitas coisas diante daquela situação.
A única coisa que interrompeu seus passos foi o som de um suspiro sereno que era audível diante daquele silêncio, do tipo que se dava quando se estava totalmente entregue ao sono. Olhou para o lado e viu que a casa que ficava ao lado daquele cemitério tinha uma garota adormecida, que por algum descuido esqueceu a janela aberta. Aproximou-se com cuidado e contemplou a face que era iluminada pelo luar, se deixando fascinar com a visão que jamais contemplara em sua vida.
— Cubra a pobre menina, deve estar com frio! — A fantasma exclamou.
— Shhh… Elionore, assim vai acordá-la! — Sussurrou.
A finada senhora segurou a risada ao ouvir a fala. Realmente, Jungkook ainda tinha muito o que aprender sobre tudo ali. A começar pelo fato de que apenas ele conseguia ver almas assim, com tanta facilidade. Era impossível que a adormecida despertasse por ouví-la, pois uma garota como aquela jamais poderia ouvir uma pobre fantasma.
— Deixe-a dormir, Jungkook. Deve descansar também.
O moreno cobriu a garota, fechou a janela e logo se afastou. Mas diferente de seu corpo, sua mente permaneceu ali, intrigada com tal beleza.
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