Taki no Kuni (País da Cachoeira), dias atuais.
Perto do alvorecer, Sakura se remexeu e despertou com um suspiro profundo. Ela estava a ponto de se espreguiçar e a meio caminho de bocejar quando — suponho que deva ter recordado da minha presença nesse momento — enrijeceu ao meu lado e olhou em volta, aturdida.
— Sasuke-kun?
Encontrei seus olhos na escuridão que se dispersava, clareando para um amanhecer iminente. Sua mão deslizou pela minha pele, acariciando o meu peito.
— Ainda desperto? — Quando assenti para sua pergunta, ela deslizou a mesma mão de volta para o meu rosto e afastou a franja que cobria o meu olho do Rinnegan. — Então descanse um pouco agora, ficarei acordada.
Estava prestes a recusar sua oferta, mas Sakura anteviu a minha resposta e, por isso, recompensou a minha teimosia famigerada com um sorriso gracioso. Então, inclinou o rosto para roçar seus lábios no meu ombro.
— Prometo acordá-lo se houver necessidade — garantiu-me, e a mim restou uma resignação contrafeita.
Fechei os meus olhos e o meu corpo relaxou contra a minha vontade. Ter Sakura nua e moldada a mim deixava-me letárgico, ou talvez se tratasse apenas do cansaço falando mais alto no fim. Tudo o que sei é que dormi pelas próximas horas um sono profundo e tranquilo, vazio de sonhos, mas cheio de expectativas para o amanhã que se achegava sorrateiro.
Quando acordei, com a luz do sol varando o cômodo através da porta que deixamos entreaberta na noite passada, percebi que continuava preso àquele estado insólito de relaxamento, quase preguiçoso — o que não integrava a minha verdadeira natureza. Talvez aquela sensação passageira fosse algo natural?
Respirei fundo antes de me sentar no futon e descobri enquanto ainda acostumava os meus olhos à claridade que Sakura já não estava mais ao meu lado. Não me escapou aos olhos também que ela havia estendido uma coberta sobre o meu corpo em algum momento e que as minhas roupas tão desleixadamente descartadas na noite passada haviam sido dobradas ao meu alcance.
Estendi a mão para a pilha e encontrei minha cueca e calça e os vesti apressado, pondo-me de pé num salto, entretanto dei por falta da minha blusa mais tarde. Deixei o quarto ainda um tanto desorientado e quase trombei com Sakura, que vinha na direção oposta pelo corredor.
— Sasuke-kun! — exclamou o meu nome sobressaltada. — Pensei que fosse dormir um pouco mais.
Pisquei a fim de espantar os resquícios de sono e só então me atrevi a prestar atenção verdadeiramente em Sakura. A blusa que dei falta mais cedo... Bem, vestia o corpo dela agora. Ou ao menos metade dele, já que suas longas pernas despontavam da bainha, nuas e pálidas.
Sakura pareceu seguir o rumo de meu olhar e, assim que nos entreolhamos, ela enrubesceu e balbuciou-me um pedido de desculpas.
— Espero que não se importe por eu tê-la emprestado, Sasuke-kun.
— Não me importo — respondi talvez rápido demais porque o rubor nas suas faces intensificou-se e ela desviou o olhar.
Ela se recuperou mais cedo do que eu imaginei e esboçou um sorriso para mim antes de anunciar com evidente entusiasmo:
— Preparei o desjejum. Venha!
Sua mão apanhou a minha e levou-me pelo corredor. Quando se virou para frente, a visão do símbolo Uchiha em suas costas por pouco não me fez estagnar no lugar, embora tivesse certamente mexido algo dentro de mim. Algo que eu não saberia explicar, mas que me deixou... Contente.
Nós nos sentamos em torno da mesa e comemos em silêncio, apesar de eu estar a par das tentativas de Sakura de iniciar uma conversação. Olhei-a mais do que deveria, na realidade busquei-a a cada vez que enxergava uma oportunidade: ver o seu corpo coberto apenas por uma peça de roupa minha... Isso me excitava. Especialmente se eu me prendesse à visão dela, sentada sobre as pernas roliças, com as mangas da minha blusa dobradas nos punhos e a gola grande demais em seu colo que me revelava um bom pedaço da sua pele.
Eu me perguntava se a veria dessa forma para sempre, se me sentiria desse jeito a partir de agora. Fiz amor com Sakura e não me arrependia nem um pouco. Na verdade — e me sentia um pouco encabulado por admitir isso — queria repetir o que tivemos na noite passada e não apenas por uma vez.
— Está bom, Sasuke-kun?
Sua voz suave tirou-me dos meus devaneios febris. Fitei-a e a encontrei com uma expressão expectante, beirando uma ansiedade irrequieta. Voltei a mordiscar o onigiri e Sakura abaixou o olhar, abaixando também seu tom de voz para um murmúrio:
— Eu não cozinho tão bem quanto a Ginchiyo-obaa-sama, mas...
— Está ótimo, Sakura, não se preocupe com isso.
Assegurei-a com sinceridade, abrandando meu tom de voz, esperançando que o meio elogio bastasse. Sakura não precisava ser perfeita em tudo o que fazia, mas isso nunca a impediu de tentar, principalmente se isso envolvesse me agradar. Eu já a queria com cada fibra do meu ser. Eu a quis por muito tempo, só tive medo de reconhecer a existência desse sentimento. Embora entendesse a razão de sua insegurança estar ligada à baixa autoestima que teve em boa parte da infância e adolescência, certos hábitos e comportamentos eram difíceis de descartar, e disso eu falava por experiência própria.
De todo modo, a minha resposta afirmativa pareceu aquietá-la. Pelo menos foi isso o que compreendi no sorriso que me ofereceu. Quando ela se levantou, senti-me estúpido por olhar suas coxas e quadris por tempo demais. O que eu era, afinal? Um adolescente? O idiota do Naruto?
Sakura seguiu para outro cômodo praticamente alheia ao alvoroço que causava em mim. Não achei que fizesse de propósito, mas era realmente possível que ela não compreendesse o que estava havendo comigo? Mais uma vez, a possibilidade de eu ser denso demais quando se trata dos meus sentimentos e desejos passou pela minha cabeça.
Por isso, terminei de comer e me levantei num rompante de indignação. Segui-a até o quarto onde ela organizava o restante da bagunça que fizemos na noite anterior. Entre apanhar as roupas que eu descartei do seu corpo e estender a coberta sobre o futon sobre o qual dormimos (entre outras coisas), eu alcancei o estopim da minha raiva por sua indiferença involuntária e inconsciente. Por que eu era o único a sofrer aqueles sintomas febris?
Alcancei-a, atravessando o cômodo com longas passadas, e a envolvi com meus braços, apertando suas costas contra o meu peito. Ao que parecia, eu havia tirado o dia para surpreendê-la.
— Sasuke-kun! — ouvi-a exclamar num misto de surpresa e ultraje quando deixou cair as peças de roupa que apanhara antes, mas honestamente eu havia me ocupado demais com o seu corpo e não dei a devida atenção a isso.
Passei o meu braço pelo seu ventre, prendendo-a a mim e com a outra mão afaguei a sua coxa, de baixo para cima, até que alcancei a curva generosa do seu quadril sob a blusa. Sakura suspirou e não fez qualquer outra coisa senão agarrar o meu pulso, não para me deter, mas para me guiar nos lugares em que desejava ser acariciada.
Pressionei os meus lábios na base do seu pescoço e ouvi de perto os gemidos que começavam a romper a sua garganta assim que os meus dedos encontraram a curva suave de um dos seus seios. Deixei que ela me mostrasse como agradá-la, como suscitar o seu desejo enquanto variava a intensidade das minhas carícias na sua pele macia.
Sakura recostou a cabeça no meu ombro e apoiou-se completamente em mim; estava a minha mercê mais uma vez, para o completo contentamento do meu ego. Eu sabia que ontem à noite havia sido diferente para nós dois. Não era um ignorante e tampouco um brutamonte, e apesar de tê-la ouvido gemer o meu nome algumas vezes, não podia evitar ficar preocupado com a possibilidade de havê-la machucado demais e arruinar algo que deveria ter sido especial.
— Sasuke-kun — ela sussurrou devagar, absorta nos meus toques.
— O que você quer, Sakura? Diga para mim — pedi e me surpreendi com meu fôlego curto, não percebi que estava tão desesperado por ela até sentir aquela mesma pressão na minha virilha.
Sakura remexeu os quadris contra os meus e eu cerrei os dentes devido ao prazer que esse atrito gerou.
— Eu... Eu só quero você, Sasuke-kun — balbuciou num único resfolego; isso era tudo o que eu precisava ouvir.
Um pouco afobado, virei-a entre os meus braços e encontrei a sua boca na metade do caminho. Sakura enlaçou o meu pescoço com ambos os braços enquanto as minhas mãos pressionaram-se na base da sua espinha, trazendo-a para mais perto de mim. Seu sobressalto quando elas moveram-se um pouco mais para baixo não me passou despercebido.
Sorri torto contra os seus lábios úmidos, ora subindo e ora abaixando minhas mãos pelo seu corpo. Atrevi-me a acariciá-la em lugares que não o fiz em nossa primeira vez, arrastando a ponta de meus dedos pelo lado de dentro de suas coxas e pelo volume do seu bumbum. Sakura arranhou meu ombro em retribuição e suspirou na minha boca.
Suas unhas curtas deslizaram pelos meus braços, contornando os meus bíceps e provocando arrepios na minha pele, antes que se detivessem sobre um local específico, no meu braço esquerdo. Senti a sua curiosidade e estranhamento quando esfregou a ponta do polegar em cima da cicatriz tênue, então rompeu nosso beijo.
Sob os meus olhos, ela rapidamente assumiu uma postura mais impessoal, ainda que preocupada com meu bem-estar. Claro que uma Iryō-nin como Sakura notaria que havia algo de errado com o meu braço protético. Ainda dedilhando a minha cicatriz, e de sobrolho franzido, ela murmurou:
— Sasuke-kun, por que não me contou?
Suspirei e subi minhas mãos para sua cintura. Sakura espalmou as mãos nos meus ombros, mas não usou sua força para me subjugar, indicando para que eu me sentasse e ela pudesse me examinar mais atentamente. Fiz o que ela queria mesmo que a contragosto.
Ela se sentou diante de mim e envolveu a minha prótese com ambas as mãos, tocando com firmeza a junção com o toco.
— Isso incomoda? — perguntou-me, enviesando as sobrancelhas delicadas com angústia.
— Um pouco — admiti, deixando que meu olhar caísse sobre os seus toques e acompanhasse seu exame, a pele parecia um pouco mais avermelhada do que me lembrava.
— Deveria ter me dito antes, Sasuke-kun, assim eu poderia tê-la tratado — ralhou com um suspiro exasperado.
Um instante depois, as suas mãos se foram e seu ninjutsu da palma mística envolveu o meu braço no lugar, atuando sobre a prótese. Houve um leve formigamento quando o seu chakra começou a agir sobre o meu membro, mas não era desconfortável, eu achava até bem relaxante.
— Desde quando ela incomoda? — voltou a me interrogar e o seu escrutínio azedou um pouco o meu bom humor; não pensei que pudesse ser tão grave, mas a julgar pelo seu tom eu havia subestimado a situação.
— Há alguns dias — respondi-a vagamente —, desde que lutei contra alguns criminosos da Higanbana.
— E você a forçou em algum momento da luta?
Franzi o cenho, recordando-me da dor que senti quando, num momento de distração, tentei apoiar o peso do meu corpo sobre a prótese. Sakura deve ter lido a resposta no meu semblante.
— Ah, Sasuke-kun! A estrutura óssea da prótese e a musculatura são muito jovens! Tsunade-sama pode tê-las envelhecido artificialmente, mas isso não muda o fato de que a prótese não deveria ser forçada dessa forma logo nos primeiros dias. Ao exercer uma pressão tão grande sobre os ossos e músculos da prótese, você pode tê-la comprometido — comentou taciturna com chakra ainda fluindo das suas mãos.
— Eu vou perdê-la? — questionei-a quase monótono, a prótese não representava muito para mim, e o que ela significava para o meu recomeço... Se fosse o caso...
— Não, você não vai perdê-la — Sakura interrompeu minha linha de pensamento. — Por sorte, pude estabilizar a condição a tempo, mas me prometa que nunca mais esconderá algo assim de mim, Sasuke-kun, por favor!
Franzi a testa, surpreso com o seu pedido. Jamais me passou pela cabeça que pudesse ser tão grave e eu não pretendia esconder nada de Sakura, apenas não havia me lembrado de mencionar o incômodo que vinha sentindo nos últimos dias.
— Eu não me importo com a prótese — ela declarou, fitando-me —, não me importo se você tiver dois ou apenas um braço, eu vou te amar de qualquer jeito. Mas se você perdesse a prótese, Sasuke-kun, como é feita de tecido vivo ela poderia ter necrosado o restante do seu braço, poderia até mesmo acabar se tornando uma infecção muito grave!
Àquela altura, ela já estava suplicando, seu timbre oscilando tanto quanto o seu estado emocional vulnerável:
— Então, por favor, Sasuke-kun, se voltar a sentir qualquer incômodo que seja... Não esconda de mim! Promete que fará isso?
— Eu prometo — murmurei mais para aquietá-la do que qualquer outra coisa e Sakura se lançou contra mim, subindo no meu colo e enterrando o rosto no meu pescoço.
— Você não precisa ser forte o tempo todo, Sasuke-kun, não comigo... — Sua voz, embora abafada na minha pele, continuava trêmula e oscilante.
Eu entendia isso, de verdade. Sakura havia visto o meu lado mais quebrado e assustado mais vezes do que qualquer outra pessoa viva. Tinha a ver com a minha necessidade de desabafar com ela, de não precisar me esconder quando estava com ela.
Era fácil libertar os meus medos e os meus monstros quando eu tinha certeza de que ela estaria por perto para remendar os meus pedaços. Aos poucos, ela havia feito o seu caminho até o meu coração e ninguém seria capaz de mudar isso, nem mesmo eu.
Depois daquele pequeno rompante... Bem, nós continuamos de onde havíamos parado. Sakura desenterrou o rosto do meu pescoço para capturar os meus lábios e quebrou nosso beijo apenas uma vez para puxar a blusa que vestia para cima, despindo-a para mim. Eu a contemplei nua e, dessa vez, sob a luz diurna, memorizando todos os contornos do seu corpo, não apenas com os olhos, mas com minhas mãos e com meus lábios.
Beijei-a onde eu quis e onde ela suplicou sofregamente para que eu o fizesse, deitando-a sobre as esteiras porque o futon me parecia distante demais e eu tinha pressa. Levei-a a lugares novos enquanto suas costas arqueavam-se, sua cabeça atirava-se para trás e as suas mãos grudavam-se ao meu cabelo.
Dessa vez, ela gemeu o meu nome com o tom certo, o tom do delírio e do desespero apaixonado. Dei prazer à Sakura sem me importar com o meu próprio negligenciado, dedicando-a minutos inteiros de atenção e carícias nos pontos certos, usando como guia os seus lamentos e suspiros. Acendi a flâmula do seu desejo e ela ondulou ao meu redor completamente rendida. Isso, claro, até ela se cansar dos meus toques torturantes e voltar a me subjugar com sua força, forçando-me para baixo do seu corpo.
— Também quero que sinta prazer, Sasuke-kun — sussurrou rouca e sem fôlego no meu ouvido um pouco antes de me despir e me fazer perder a razão e o autocontrole.
Quando aconteceu, quando caí sobre o seu corpo, foi novo e velho de uma forma estranha e paradoxal. Daquela vez, o desconforto de Sakura durou menos do que na noite anterior e os seus gemidos ao pé do meu ouvido me deram mais segurança quanto ao que apenas a agradava e o que a fazia sucumbir de prazer.
O suor que escorria pelo meu corpo dessa vez também porejava a sua pele alva e nós dois respirávamos o mesmo ar quente e denso. Suas coxas estavam ao redor dos meus quadris, puxando-me para mais perto. E mais uma vez aquela sensação se construiu no meu corpo: a tensão nos meus músculos, a expectativa agoniante pelo porvir que me fazia perder o controle sobre as minhas investidas, a certeza de que eu não suportaria me separar dela, não agora.
E, enfim, aquela completude mansa preencheu-me novamente com uma intensidade na medida exata.
Ao final, jazíamos os dois ainda deitados — eu ainda por cima do corpo de Sakura com a cabeça apoiada nos seus seios macios — e fisicamente esgotados. Eu não tinha forças nem mesmo para me afastar dos seus braços dessa vez e as suas carícias no meu couro cabeludo me deixavam ainda mais sonolento.
— Sasuke-kun? — ouvi o seu chamado quando estava prestes a cair no sono.
— Hmm? — resmunguei e me acomodei mais confortavelmente contra o seu corpo.
Seus dedos deslizaram mais uma vez pelo meu cabelo e eu suspirei satisfeito.
— Você não mudou de ideia sobre o plano para deter a Higanbana...? Mudou?
Abri um único olho e fiz menção de me levantar. Sakura não protestou quando me afastei, mas pensei ter visto um lampejo de tristeza no seu rosto antes que ela virasse as costas para mim; deitou-se de lado, apoiando a cabeça em um braço e cobrindo os seios desnudos com o outro.
Crispei o rosto, contrariado, e murmurei:
— Concordo em te levar comigo, mas sob duas condições.
Minhas palavras tiveram efeito imediato: Sakura se sentou sem se incomodar com sua nudez e o seu semblante havia se transformado de tempestuoso em esfuziante em um piscar de olhos. Balancei a cabeça com um suspiro.
— Você fará tudo o que eu disser. — Fiz questão de deixar bastante clara a minha condição. — E se a situação se complicar, será cautelosa, extremamente cautelosa — enfatizei a última sentença.
Sakura cruzou os braços sobre os seios, com uma compleição emburrada.
— Do jeito que você faz soar, parece até que eu vou me jogar no meio de uma batalha sem pensar!
— Você faria exatamente isso — provoquei-a e Sakura inflou as bochechas, mas não me contrariou.
Depois de um tempo, olhando para o seu rosto amuado, decidi lhe fazer uma única concessão, afinal continuava de muito bom humor:
— Eu só não quero que se machuque de novo.
— Eu não vou me machucar, Sasuke-kun — disse-me com ar solene. — Eu prometo.
E a nossa pequena discussão encerrou-se assim que ela colou os seus seios no meu peito e a sua boca na minha boca, segurando o meu rosto entre as suas mãos.
Eu gostava mais do que deveria desses nossos pequenos momentos. Gostava de senti-la contra mim, cada centímetro dela, e gostava ainda mais de ouvi-la suspirar o meu nome. Gostava de fazer amor com Sakura e era exatamente por apreciar cada minuto que tínhamos que eu não me via mais sem a sua companhia, sem o seu calor e os seus olhos atentos cuidando de mim.
O meu futuro turvo e nuvioso aos pouco se tornava nítido para mim; eu já sabia o que faria depois que resolvêssemos essa crise em Taki e eu extinguisse a ameaça da Higanbana.
Eu construiria o meu futuro... Com Sakura ao meu lado.
⊱❊⊰
Com o cair da noite, nós voltamos a nos sentar à mesa para o jantar. Sakura dessa vez vestia um quimono emprestado da velha Kunoichi e eu lamentava secretamente o fato de o símbolo do meu clã já não adornar mais as suas costas.
Aos poucos, Sakura se soltou de suas próprias amarras para conversar comigo sobre todo tipo de assunto trivial. Eu a ouvi atentamente porque o som da sua voz me acalentava, ou talvez ela estivesse apenas me tornando... piegas. Não que algum dia eu fosse lhe confessar isso.
Havia certos pensamentos que ainda preservava apenas para mim e certas verdades que preferia omitir porque sentia que ainda não estava pronto para revelá-las. Mas Sakura conhecia mais de mim do que eu mesmo acreditava que conhecia. Que outra razão haveria para ter tido fé em minha redenção e seguir me amando quando eu mesmo desprezava a ideia?
— E então nós tivemos que fazê-lo se sentar e se acalmar porque o Naruto havia ficado tão entusiasmado com a notícia da gravidez da Hinata! — contou-me com um sorriso largo, os olhos cintilando ao relembrarem algo que para ela era especial. — Ele realmente ficou muito feliz e abraçou tão depressa a ideia de que seria pai... Eu estou contente pelo Naruto, ele merece ser feliz.
De repente, baixou o tom de voz e ajeitou uma mecha de cabelo, pondo-a atrás da orelha. Eu conhecia aquele seu trejeito, Sakura só o fazia quando estava ansiosa.
Aquiesci. Aquele estúpido de fato merecia ser feliz depois de tudo o que havia passado. Confortava-me que eu já não estivesse tantos passos atrás dele, mas eu ainda precisaria fazer alguns arranjos no futuro. Em especial porque também queria uma família com Sakura. Indubitavelmente.
Como se lesse meus pensamentos, ela perguntou-me num sussurro:
— E você, Sasuke-kun? Pensa em ter uma família...? Não agora, é claro! — adiantou-se ruborizada, tomando a liberdade de explicar-se melhor, muito embora eu a entendesse. — Talvez, algum dia...
Dei de ombros, ciente de que ela ansiava pela resposta certa.
— Não vejo empecilhos, se algum dia eu decidir iniciar uma família.
— Verdade?
Sorri para ela.
— A minha penitência, Sakura, terminou; a expiação dos meus pecados acabou. Não que eu possa compensar todos os erros que já cometi, mas eu acredito que estou finalmente pronto para deixar o passado ir e virar os meus olhos para o futuro.
Quando me levantei, tendo acabado de comer, Sakura me acompanhou.
— Não teríamos dormido juntos se assim não o fosse. — O meio sorriso malicioso estava de volta aos meus lábios.
Tive o prazer de vê-la corar e desviar os olhos antes de murmurar uma desculpa qualquer e começar a retirar a mesa. Notei que suas mãos tremiam sutilmente quando as estendeu para empilhar a louça suja.
— Puxa, Ginchiyo-obaa-sama deve chegar amanhã! — comentou e seu tom entregou como tentava dispersar a tensão entre nós dois.
Suspirei e comecei a ajudá-la a reorganizar tudo, depois fui me sentar na varanda, sozinho. Queria alguns minutos para mim mesmo, para meditar nos meus próprios pensamentos.
Escutei o cricrilar dos grilos nos prados de lírio-aranha e também escutei o sussurro fantasmagórico do vento ao soprar nas frestas das rochas. Mais alguns minutos se passaram antes que eu decidisse voltar para dentro da casa. Apesar de haver dormido boas horas ao longo do dia, eu continuava a me sentir sonolento, relaxado demais.
Não encontrei Sakura no vestíbulo ou na sala de estar, tampouco no corredor. Fui encontrá-la no quarto, de pé no meio do cômodo enquanto desatava o nó do quimono que vestia para trocá-lo por outro de tecido mais leve e confortável: preparava-se para dormir, percebi. Quando desnudou um ombro alvo, acheguei-me sorrateiramente e pousei a mão no pedaço de pele descoberto aos meus olhos.
Ela não esboçou surpresa quando fiz menção de afastar ainda mais o tecido, revelando sua nudez pouco a pouco. O tecido pesado caiu aos seus pés com um farfalhar. Nua mais uma vez diante de mim parecia que, afinal, as suas maiores inseguranças estavam sendo superadas.
Num movimento fluído, abaixei-me para apanhar a outra vestimenta que ela separara para vestir e percorri o seu corpo com meus olhos. Empertiguei-me devagar, apreciando a visão de suas formas e a ajudei a vestir-se com uma vagareza ainda mais deliberada. Abri o tecido e o coloquei sobre os seus ombros, deixando que passasse os braços pelas mangas.
No fim, abriu-me um sorriso enquanto seus dedos se ocupavam em atar um nó frouxo em torno da cintura. Apanhou-me pela mão e guiou-me até o futon que dividíamos. Deitei-me ao seu lado, satisfeito e certo de que só adormeceria depois que ela o fizesse.
Felizmente, ela caiu no sono, serena, bem depressa e eu a velei por horas conseguintes e insones, manso como a noite profunda lá fora.
⊱❊⊰
Ho no Kuni (País do Fogo), três anos antes.
O julgamento começaria dentro de poucos minutos e todos cujas presenças haviam sido requisitadas já entravam por uma larga porta, à minha frente, há algum tempo. Estávamos num salão espaçoso, bem iluminado e com grandes janelas.
Eu estava de pé ao lado de uma espécie de tribuna, com cinco cadeiras vagas, cada uma delas reservada a um dos Kages. Dois Shinobis vigiavam-me, assegurando-se de que eu não tentaria nada — não que eles pudessem me impedir, caso eu tentasse.
Por sorte, Kakashi havia me convencido a vestir o manto de cordeirinho, embora toda aquela burocracia formal me entediasse profundamente. O dispositivo ao redor do meu pulso continuava a limitar o meu fluxo de chakra; era uma sensação enervante e incômoda.
Nos estrados, perto da única entrada, avistei Sakura. Ela se sentou num dos lugares vagos e me lançou um olhar angustiado. Quebrei o nosso contato visual porque não suportava que ela sofresse por minha causa, por se preocupar com meu bem-estar... de novo.
Naruto foi um dos últimos a entrar e várias cabeças se viraram para vê-lo percorrer os estrados e vir se sentar num dos primeiros bancos. Kakashi havia se assegurado de que ele manifestaria a sua vontade e os demais Kages o ouviriam. Ao seu lado, notei, estava Killer Bee e eles trocaram rapidamente algumas poucas palavras. O ar ali dentro estava carregado de tensão.
Por fim, os cinco Kages entraram juntos antes que a porta fosse fechada. Eles atravessaram o salão até se acomodarem nas suas respectivas cadeiras na tribuna, à minha direita. O silêncio que se achegou ali era tão absoluto que se ouviria o som de um alfinete caindo no chão.
Dois dos Kages carregavam uma expressão de tédio profundo: a Mizukage e o Tsuchikage pareciam ter comparecido ali apenas porque não lhes foi dada alternativa. O Raikage fulminava-me com os olhos de minuto em minuto; eu podia sentir os seus olhos faiscantes buscando abrir buracos no meu rosto.
O Kazekage era difícil de ler, mas notei que ele lançava olhares ansiosos para Naruto de tempo em tempo. Por fim, havia Kakashi e sua compleição mascarada consuetudinariamente neutra e de olhos cansados. Bem, ele era o Kakashi afinal.
Como ainda era de comum acordo que o Raikage era o líder da Aliança, foi ele a tomar a palavra e a abrir o meu julgamento, listando todos os meus feitos e todos os meus crimes desde o dia em que desertei da vila para me unir a Orochimaru.
Estava profundamente entediado na metade do manifesto e em algum momento troquei olhares com Naruto, que franziu o cenho de modo sutil e balançou a cabeça quase imperceptivelmente num gesto afirmativo, tentando me transmitir confiança.
Depois, cometi o erro de procurar pelo rosto de Sakura. Ela ainda me fitava aflita, e a dor nos seus olhos por me ver de pé ali, sendo relembrado por todo o mal que já fiz, era tangível.
Respirei fundo, mas não tive forças para quebrar nosso contato visual dessa vez. Se eu fosse condenado, estava bastante claro para mim que eu arrastaria a minha família comigo para um destino funesto.
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